( Resenha ) A Vida Invisível de Eurídice Gusmão de Martha Batalha @cialetras

Editora Companhia das Letras

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Sinopse


Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece muito feliz nas suas escolhas.

A realidade das Gusmão é parecida com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro nos anos 1920 e criadas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós, bisavós; invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar as próprias vidas, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha. Uma promessa da ficção brasileira que chega afiadíssima para contar uma infinidade de histórias bem costuradas e impossíveis de largar.


Resenha




Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.

A vida invisível de Eurídice Gusmão nos mostra muito da realidade das mulheres na década de 20. Deixo avisado que é uma leitura que nos causa aquela sensação de incredulidade e até mesmo revolta. 

O livro é narrado em terceira pessoa e com foco em Eurídice, mas sem deixar de comentar as vidas das mulheres que passaram pela trajetória da protagonista.

São coisas do cotidiano de uma mulher, desde a infância e seu "aprendizado" na escola e com os pais, passando pela adolescência e as mudanças no corpo e olhares que nunca recebiam, para finalmente chegar na vida adulta com o casamento, filhos e cuidar do lar.

Neste livro vemos como a vida das mulheres era totalmente limitada ao que os homens desejavam. Em vários momentos presenciamos sonhos serem completamente destruídos pelo simples fato de serem de uma mulher.

E Eurídice, que nunca tinha visto a vida além daquela casa e daquele bairro, ou da casa dos pais, achou que o marido tinha razão. Antenor sabia das coisas. Ele estudou contabilidade, era funcionário do Banco do Brasil e discutia política com outros homens. Enquanto trabalhava nas receitas ela tinha certeza de que estava fazendo algo de valor, mas na frente do marido tudo perdia o sentido. Publicar um livro, falar na rádio, ensinar culinária foram devaneios que teve. Visão quem tinha era Antenor.

Mas Eurídice é uma das mulheres que, mesmo com a pressão da sociedade e da própria família, tem aquela voz interior que diz que deve buscar algo mais na vida. Buscar um sonho e uma motivação para viver.

Mas assim como todas as mulheres da sociedade em que ela se encontra, Eurídice é invisível. Seus desejos são invisíveis. Sua voz não é ouvida e sua vida não é importante.

Vamos acompanhar toda a busca, quedas e retomadas da vida da forte Eurídice.

Em paralelo vemos também a vida da outra jovem Gusmão. Guida, a irmã mais velha de Eurídice, vai trazer a outra realidade da vida de uma mulher na década de 20. Diferente da irmã mais nova, Guida não conseguiu um casamento de sucesso e teve que trabalhar e enfrentar toda a frieza da sociedade para conseguir sobreviver.

Mas uma coisa elas têm em comum, a força de sempre buscar uma vida melhor. As irmãs Gusmão com toda certeza são mulheres batalhadoras, cada qual com suas características, cada qual a sua maneira, cada qual com seu sonho.

Se antes ela queria perder o filho, agora podia perder tudo, menos o filho. Guida aninhou o bebê entre os seios e sentiu-se em paz. Que bom que você está aqui, Francisco. Ela nunca mais estaria sozinha.

A cultura e a opinião da sociedade influenciava muito a vida de todas as famílias. E por uma má influência, outras mulheres acabavam compactuando com todo esse machismo da sociedade.

A grande maioria das mulheres vivia em suas casas, tendo como obrigação somente cuidar dos afazeres domésticos e das crianças. Qualquer outra atividade podia ser vista como crise financeira ou então má índole. Para passar o tempo ocioso, as mulheres ficavam analisando as pessoas na rua, acredito até mesmo com a vontade de ter a liberdade de trabalhar ou ter uma rotina fora de casa.

A fofoca depreciativa acabava por prejudicar outras pessoas, ou seja, daí que veio a ideia de que as mulheres não são unidas. Mas antes de falar qualquer coisa devemos sempre olhar o passado e verificar o que acontecia, qual a herança cultural trazemos conosco. E esse livro é uma amostra de como toda uma cultura machista ainda causa impacto em atitudes presentes na sociedade atual. Por isso reforço que sempre devemos buscar acabar com estas atitudes e pensamentos, até mesmos os pequenos e sutis, para que a sociedade no futuro possa um dia, viver sem resquícios de uma cultura depreciativa.


Este livro foi uma excelente leitura para mim e com certeza recomendo à todas as pessoas. Para as mulheres, nele conseguimos ver várias situações que ainda encontramos na sociedade atual, de forma mais sutil ou até mesmo descaradamente, assim fazendo enxergar que não podemos em hipótese alguma deixar que as conquistas de direitos que conseguimos, sejam diminuídas. 
Para os homens, quem sabe lendo as coisas e pensamentos absurdos de pessoas de um tempo não tão distante, possam fazer com que se conscientizem e mais, possam perceber que quando as mulheres buscam igualdade e demonstram estar inconformadas com atitudes que diminuam a pessoa somente pelo sexo que esta possui, não estão falando de uma coisa de séculos atrás. Estas atitudes aconteceram em um passado muito recente e devemos sim evitar que qualquer atitude deste tipo, permaneça na sociedade. 

O resto era domínio de Eurídice. Ele estava ali para botar dinheiro em casa e para sujar os pratos e desfazer a cama, e não saber como as roupas tinham sido lavadas e como a comida tinha sido feita.

Excelente leitura capaz de auxiliar na reflexão sobre o machismo da sociedade. 

A Vida invisível de Eurídice Gusmão já teve seus direitos comprados e vai virar filme, com início das filmagens programado para 2017. Aguardarei ansiosamente. 



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