( Resenha ) Garota em Pedaços de Kathleen Glasgow @PlanetaLivrosBR

Planeta de Livros Brasil

Clique na capa e compre o livro na Saraiva

Leia a sinopse AQUI.


Resenha


"Automutilação é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Os atos geralmente têm como intenção o alívio de dores emocionais. As formas mais frequentes de automutilação são cortar a própria pele, bater em si mesmo arranhar-se ou queimar-se. A automutilação é comum entre jovens e adolescentes que sofrem pressão psicológica.Refere-se a comportamentos onde demonstráveis feridas são autoinfligidas. A maioria das pessoas que se automutilam estão bastante conscientes de suas feridas e cicatrizes e tomam atitudes extremas para escondê-las dos outros. Eles podem oferecer explicações alternativas para suas feridas, ou tapar suas cicatrizes com roupas. A pessoa que se automutila não está, usualmente, querendo interromper sua própria vida, mas sim usando esse comportamento como um modo de cooperação para aliviar dor emocional e desconforto. " 


Fonte: Wikipedia



Já inicio minha resenha com a definição de automutilação. "Garota em Pedaços" é um livro que aborda esse tema. 

Automutilação é um transtorno real, que acomete tantos jovens pelo mundo, 20% segundo G1, mas ainda é um tabu. Silenciosa para quem recorre a ela, incompreensível para as pessoas ao redor. 

Não conheço (ao menos acredito não conhecer) nenhuma pessoa que se automutila. Porém, sentia curiosidade em saber mais sobre o assunto, e nada melhor que ler uma obra que o trouxesse.


Charlie é uma adolescente que recorre a automutilação para aliviar sua dor. Não imaginem encontrar uma personagem maravilhosa, com descrições perfeitas de seu aspecto físico. Aliás, ela não é contente com sua aparência. Se considera suja, feia, nojenta.
“Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim. O mundo se torna um oceano, o oceano cai em cima de mim, o som da água é ensurdecedor, a água afoga meu coração, meu pânico fica do tamanho do mundo. Preciso de libertação, preciso me machucar mais do que o mundo pode me machucar. Só assim posso me reconfortar.”
Não quero dar muitos detalhes sobre “o que levou Charlie” a se machucar, mas vocês precisam saber que não existe romantização para sua dor. Temos uma personagem realmente sofrida, que não tem uma família para apoiá-la. 
“Porque, quando você está machucada e alguém ama você, esse alguém devia ajudar, né?”
Vivera muito tempo nas ruas e foi nesse período que se machucou tanto que quase morrera. Sangrando a beira da morte, fora levada para uma clínica psiquiátrica.

Contrariando completamente o que estamos habituados a ver em muitas obras literárias, Charlie não quer fugir dali. Muito pelo contrário, ela se sente protegida, abrigada, além de ter acesso a alimentos.

Ficar ali exige investimento financeiro e, após um tempo, sua mãe não tinha como mantê-la. Charlie então, cheia de cicatrizes, com medo e ainda não recuperada psicologicamente, precisa deixar o lugar. 

Aposto que estão se perguntando: se a garota tem mãe, por que vivia nas ruas? 

Eu não posso me aprofundar nessa relação, pois seria um spoiler. Vocês só precisam saber que Charlie não podia contar com ela. Antes mesmo de ir para as ruas, já era sozinha. Sua vida mudou um pouco quando conheceu Ellis, uma amiga que deu a Charlie o que não conhecia ou não lembrava: amor.

Ellis fora a responsável por apresentar à nossa protagonista Mikey. Em meio a bebedeiras, rock e drogas, eles se divertiam e cuidavam um do outro.

Mas Ellis não estava mais presente. Charlie não poderia mais contar com a amiga para nada. Por sorte, Mikey estava disposto a ajudá-la e abrigou a garota em sua casa.

Em uma nova cidade, com novas pessoas e novos problemas, Charlie encontra na arte uma forma perfeita de fugir da dor sem precisar se machucar. Poderia uma garota em pedaços recomeçar?

Gostei muito da abordagem ao tema. Foi algo mais real, mais duro e direto. Sempre me perguntava: afinal, o que leva uma pessoa a se machucar? E o enredo nos responde justamente a essa pergunta.

A narrativa é em primeira pessoa, o que deixou o enredo ainda mais interessante. A impressão que tive foi de presenciar tudo, e por isso fiquei desconfortável em muitos momentos. Não pensem que esse fato se dá por descrições minimalistas da automutilação. Não. Na verdade nem temos isso. O desconforto que senti foi por ter ali humanos reais (sofridos, cruéis, bondosos, nojentos, alheios...) e por sentir a perturbação de Charlie.

Mesmo que narrado pela própria personagem, não temos as respostas de todo seu sofrimento de bandeja. Isso nos instiga; fiquei curiosa em avançar as páginas, em saber o que havia ocorrido no passado de Charlie. Mas não o fiz. A conexão leitor/personagem foi tão forte que não me senti bem em fazer isso, pois era como se eu não respeitasse o seu momento em revelar como foi que chegou a esse ponto.
“Eu cortei todas as minhas palavras fora. Meu coração estava cheio demais delas.”
Fiquei desconfortável comigo mesma por, várias vezes, desacreditar de Charlie. Isso foi inédito em um livro. Afinal, sempre temos a certeza do final feliz. Neste, não tive. Me perguntava o tempo todo: como Charlie poderia ser salva? E a medida que a história ia se desenvolvendo, mais personagens apareciam, alguns dispostos a ajudá-la, outros mais ferrados que ela. E adivinhem a quais ela recorria? 

Foi uma leitura tão diferente, tão tocante e emocionante. Acredito que cada leitor terá sua própria experiência, imagino que os mais novos se sentirão alertados; os que recorrem a dor como escape poderão se identificar e tirar lições preciosas; os que convivem com eles poderão compreender para melhor auxiliá-los. 
“Você pode beber, se arranhar, usar metanfetamina, cheirar coca, se queimar, se cortar, se furar, arrancar os cílios ou trepar até sangrar. Tudo é a mesma coisa: automutilação.”
Eu recomendo demais a leitura dessa obra. Vocês irão encontrar personagens péssimos, daqueles que dá vontade entrar no livro e partir para a agressão. Também encontrarão personagens maravilhosos, do tipo que pedimos para existirem na vida real. E alguns tão despedaçados, que senti vontade colá-los. Com isso, só ressalto que os personagens são muito bem construídos, e ao final da leitura, é difícil esquecê-los. Acredito que serão inesquecíveis. 
“Deve ter um milhão de histórias dentro de você.”
A edição está maravilhosa! Diagramação perfeita, páginas amarelas. Por dentro e por fora, temos detalhes que lembram cortes, o que tem relação direta com o enredo. A editora com toda certeza fez um ótimo trabalho (angelical pra caralho Editora Planeta).

Terminei a leitura com os olhos marejados e o coração apertado. Como lição, aprendi que nossas atitudes podem ser um alívio para pontas afiadas.
“Tudo e todos que estragados têm conserto.”
Vou terminar minha resenha deixando uma versão da música "You are the one that i want". Ela é citada no enredo, adoro a original, mas essa versão cabe perfeitamente no livro. E deixo também um quote do livro para que reflitam.


“Se você tiver uma das suas fotos de turma do colégio, aposto que consegue me encontrar. Não vai ser difícil. Quem é a garota que não está sorrindo? Quem, mesmo estando entre duas outras pessoas, ainda parece estar meio sozinha, porque os outros dois estão meio longe dela? As roupas dela são... simples? Sujas? Largas? Meio invisível. Você se lembra do nome dela?”

10 comentários

  1. Olá!
    Nossa a temática desse livro é bem forte e com certeza vale muito a pena ser lido.
    Adorei sua resenha e lerei!
    Beijos!

    Books & Impressions

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Raissa! Sim, a temática realmente é forte e não passa despercebida. É um tema muito atual e infelizmente, vem sendo muito visto por ai.
      Com toda certeza vale muito a pena.
      Beijos, fico feliz que tenha curtido a resenha ♥

      Excluir
  2. Não gosto muito da capa, mas quero ler, principalmente por se tratar de temas fortes e que são infelizmente atuais, esse já esta na minha lista de futuras leituras.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Amore!
      A capa condiz completamente com o conteúdo. Ela me chamou muito a atenção rs.
      Beeijos

      Excluir
  3. Bia!
    Quando vejo livros que abordam temas fortes como esse, fico sempre pensando como será a construção das personagens e também qual caminho o autor irá dar ao assunto, se será mais para o lado ficcional e sem aprofundamento, ou será mais para o lado real, com as consequências esperadas...E fiquei feliz em ver que apesar da dura realidade, o autor sobre abordar o tema de forma firme e crível.
    “A solidão é a mãe da sabedoria.” (Laurence Sterne)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Rudy! Foi uma abordagem muito próxima da realidade. Recomendo.
      Beijos

      Excluir
  4. Quero muito esse livro, por aborda o tema da automutilação de maneira tão clara, que após essa leitura acredito que vai fazer com que nos leitores ficamos mais atentos aos sintomas desse transtorno, pois pessoas das quais convivemos podem estar passando pela mesma situação, e precisa de ajuda. Todos os livros que aborda qualquer tipo de transtorno seja ele qual for, acredito eu que não quer romantizar tal assunto, mas sim acorda a sociedade que isso acontece, e que deve ser feito algo. Depois que comecei a me gradua em psicologia conheci pessoas que se automutilação, e acredito que tiveram motivos, e que procuraram ajuda e conseguiram tratar tão transtorno. Acredito que essa personagem precisa de alguém que estivesse do seu lado, lhe apoiando quando mais precisou, nossos sentimentos são capazes de nos confundir, e nos levar a cometer atos inconscientes. Enfim, quero essa obra para ontem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Lana! Ao concluir a leitura, acredito que sim, o leitor ficará mais atento aos sinais. Infelizmente, nem todos os autores são responsáveis ao abordar temas fortes como esse. Existem livros por ai que romantizam sim esse feito, e ao invés de gerar um alerta, acaba levantando uma moda insana. Neste caso, em Garota em Pedaços, a autora fez uma abordagem muito responsável, onde ao mesmo tempo que compreendemos o transtorno da protagonista, ficamos alertas para que isso seja evitado ao nosso redor.
      Como estudante de psicologia, acredito que seria muito válido você ler a obra.
      Beijos ♥

      Excluir
  5. Nossa que livro com o tema mais forte!! Ainda não li nenhum livro desse gênero mais fiquei bem interessada em ler a história desse livro!!
    Beijoss

    ResponderExcluir

© BLOG CLÃ DOS LIVROS- TODOS OS DIREITOS RESERVADOS | Design e Programação por