5 Estrelas,

( Resenha ) O Homem de Lata de Sarah Winman @FaroEditorial

17 junho Clã dos Livros 0 Comments

Faro Editorial

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Resenha

Acabei o livro nesse exato instante. Deveria ser fácil falar dele, afinal, todas as emoções e percepções estão fresquinhas na memória, no coração... na pele. Mas não está sendo fácil, não. Talvez eu precise de um tempinho para colocar as ideias no lugar, ou para pelo menos pensar no que eu quero falar aqui.

Mais cedo eu disse a dois amigos que o livro estava me deixando deprimida – e realmente estava. Eu achei que com o virar das páginas as coisas iam melhorar, que aquela sensação ia passar... mas não passou. Há algo sobre mim que quase não falo por aí: eu sou psicóloga. Amo a minha profissão, amo tudo o que ela significa para mim, mas não a exerço. Por que estou falando isso agora? Bem, estou falando isso por que fiquei deprimida por ter sentido, a todo momento, que Ellis, o personagem principal de O homem de lata, estava em uma sessão de terapia. Eu o “ouvi” atentamente. Cada pausa, respiração, exasperação, sentimento, toda a sua dor. E tudo isso foi analisado pela psicóloga que há em mim, claro, mas o que me deprimiu foi o fato de que eu não só o analisei, eu o senti. Me envolvi com tudo aquilo. Vocês não têm ideia do quão prejudicial é para um psicólogo envolver-se com os problemas de seus “pacientes”. Foi preciso, por diversas vezes, fechar o livro, olhar para o teto e dizer para mim mesma: ei, miga, sua loka! É só um livro!!!

Um desses amigos me disse: “Eu ouvi dizer que esse livro é bem ‘ruinzinho’". Como resposta, eu disse que ele estava fluindo bem, e realmente fluiu. Tenho tido problemas para ler – falta de tempo, de ânimo – e fazia tempo que eu não pegava um livro e o devorava como aconteceu com este. Fiquei sedenta por mais. Eu fiquei sedenta por um final feliz. Se ele veio? Bem... vai ser preciso ler para saber.

Ellie é um homem solitário de quarenta e poucos anos (não me lembro bem de sua idade) que sobrevive a dias que começam e terminam da mesma maneira – ele se levanta às cinco da tarde, se apronta para ir ao trabalho, se esquiva de um e outro por lá, mas sempre se vê envolvido e interessado nos quase monólogos de seu colega Billy. Depois da noite de trabalho, ele volta para casa pedalando sua bicicleta despreocupadamente, toma café da manhã, dorme e tudo se repete.

Certo dia ele tem o que eu determinei como uma crise de ansiedade – crise esta com algumas (muitas) notas de ataque de pânico. Ele sai mais cedo do trabalho, e enquanto pedala absorto em seus devaneios, ele acaba sofrendo um acidente. É atropelado, tem o pulso quebrado e acaba indo parar num hospital. Lá, com a mente anuviada por remédios para dores, ele acaba falando sobre o pai quando a enfermeira lhe pergunta se há alguém que ele gostaria que fosse avisado. Ele conta que ele está viajando com a esposa, e conta também que sua atual esposa, antes de ocupar esse posto, foi sua amante. Ellie chega a essa conclusão quando se dá conta de que, mesmo quando seus pais ainda eram casados, ele sentia o perfume doce e marcante da atual companheira de seu pai. Ele não guarda rancor, não. Pelo contrário.

A lembrança desse momento remoto o faz lembrar de sua infância. Primeiro, lembra-se de sua bela mãe, que era inteligente, amorosa e apaixonada por arte. Lembra-se também de um amigo em especial, amigo este que, logo se percebe, é o causador de boa parte de sua dor atual. Conhecemos um pouco da infância dos dois, do nascer e desabrochar dessa amizade, amizade que se tornou algo maior. Conhecemos também sua adolescência, a transição para a fase adulta e nessa transição, conhecemos Annie, a mulher por quem ele se apaixonou. A mulher que se tornou sua esposa. A mulher que, assim como o amigo, ele veio a perder. A mulher que, assim como Michael, é a responsável por esses dias tristes e rotineiros de Ellis.

O tempo passou e Ellie não superou a morte dos dois. Ele está de luto desde então, e mesmo tendo se passado mais de cinco anos, esse luto não vai embora. Ele permanece estático, sobrevivendo, como eu disse ali em cima. Ele anda se arrastando por aqui e ali, mas esse acidente fez com que ele começasse a querer entender esse sentimento, fez com que ele finalmente quisesse reagir. Engana-se quem pensa que é nesse momento que a dor sessa, ou mesmo diminui. Na verdade, é aqui que a dor piora, pois é aí que o enlutado começa a aceitar que perdeu uma pessoa querida e amada – ou, no caso de Ellie, quatro (a mãe; Mabel, a avó de Michael, uma mulher que o acolheu e o guiou quando sua mãe se foi; Michel, seu único, melhor e eterno amigo; Anne, sua esposa). Ele começa a dar vasão aos sentimentos e lembranças, e quando ele começa, não para mais. Nesse meio tempo ele começa a se esforçar para continuar. Começa a se reerguer. E o que acontece é que vamos nos erguendo com ele, pois a empatia é tanta que, acreditem, nos vemos de luto junto com esse cara que parece vazio.
Descobrimos que de vazio Ellie não tem nada. Ele está cheio de dor, mas também está cheio de lembranças. A maioria delas é linda e deixa nossos corações quentinhos. As que não são, em sua grande maioria, vêm de fatos que, posteriormente, acabam se tornando fatos felizes, e isso prova algo que eu sempre digo: não importa quão ruim seja uma situação. Sempre poderemos tirar algo de bom dela.

Acompanhar essa evolução não é fácil, acreditem. Esse livro é repleto de momentos felizes, momentos que nos fazem sorrir, mas imediatamente o sorriso se vai, pois nos lembramos que aquilo passou, se foi. É engraçado que todas as lembranças e passagens nos dão a sensação de que, depois de ter vivido tudo aquilo, vai ser impossível para Ellie continuar e ser feliz. E é aí que entendemos o quão profundo esse livro é.

Não espere uma história com ensinamentos, com aquela moral que faz com que algo em sua vida mude. A gente muda, sim. Temos aquele pensamento tipo “se depois de tudo pelo que passou Ellie conseguiu dar alguns passos rumo ao futuro, eu também consigo”. Talvez esse livro não mude a vida de ninguém, e provavelmente, ele será mais um daqueles que divide opiniões – lembram do comentário do meu amigo? Provavelmente quem afirmou para ele que o livro era “ruinzinho” não gostou nadinha da trama. Já eu, passada a “deprê”, afirmo com segurança que sim, eu gostei do livro. Gostei muito, inclusive.

Eu não senti necessidade de ter respostas para as perguntas que ficam no ar, sabe? Senti que bastava saber que o personagem estava sofrendo, pelo quê ele estava sofrendo, e principalmente, bastou saber que, mesmo envolto em tanta dor, ele resolve dar mais uma chance a si mesmo. Isso basta. O misto de emoções que senti lendo esse livro me bastou. Isso foi o suficiente para que eu possa dizer por aí que, mesmo sem ter mudado minha vida de alguma forma, O homem de lata sempre terá um lugar especial no meu coração de leitora.

Caso você o leia e não ache que o final foi bom o bastante, por favor, me responda: para você, o que é um final feliz?

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